Afinal, do que são feitos os relacionamentos?
É de momentos a dois, com abraços longos e beijos molhados?
É de idas ao cinema, coisa que você não se atreve a fazer sozinho?
É das brigas e fazer de pazes, sempre com um intervalo doloroso e dramático?
É das fotos que se acumulam no celular, junto aos vídeos que foram apagados?
É dos lençóis molhados e da roupa pelo chão?
É dos amassos dentro do carro, coisa que sua mãe já disse que é um perigo?
É das viagens cheias de percalços que terminam num hotelzinho charmoso em beira de estrada?
É dos cds trocados, livros emprestados ou dvds assistidos abraçadinhos?
É da pipoca dividida na praça, ao som de um violão?
É das visitas à farmácia quando um dos dois ficou doente?
É dos almoços em família, com frango assado e embaraço?
É das discussões intermináveis sobre política, literatura, cinema ou o futuro da humanidade?
É das reclamações sobre a bagunça, o clima, o filme ou a comida?
É das flores que se dá e se recebe?
É dos telefonemas no meio da madrugada?
É dos ciúmes irreprimidos e sem motivo aparente?
É dos jantares, pizzas ou box de comida chinesa?
É dos latidos do cachorro do vizinho?
É das festinhas e churrascos dos amigos em comum?
É da rotina criada só pra se agradar?
É de tudo isso e da hora em que temos que devolver os cds, os dvds, os livros, as vitrolas, as máquinas de escrever, os beijos, os abraços, os sorrisos, as risadas, os caprichos, as noitadas, os jantares, a comida chinesa, o cachorro, a sogra, a gripe, o cinema, o sorvete, a pipoca, a praça, o violão, a falta, o carinho, a saudade, os amigos, os apelidos, as flores, as viagens, as brigas, a rotina, os amassos, a farmácia, a bagunça, os lençóis?
Como dói devolver você.
Um dia basta
Tuesday, August 16, 2011
Saturday, July 9, 2011
Sobre ser um sucesso
Dizemos que hoje em dia, temos que amar nosso trabalho. Que ser um sucesso é ter paixão pelo que se faz. É construir sua própria carreira, planejar seus passos independente da empresa em que estiver. Que é preciso ter a mente aberta, ser multidisciplinar e empreendedor. Pergunto-me quando é que vão nos mandar ser nós mesmo.
Ops. Ah,é! Já mandaram. Aquelas pilhas de livros em destaque na loja diziam isso, né? Que temos que ser nós mesmos. Desde que sejamos estilosos, bonitos e magros, em forma, pratiquemos um esporte, comamos comida japonesa e trabalhemos com o que amamos.
Podemos criticar a geração anterior o quanto quisermos. Seremos sempre e cada dia mais como eles: apaixonados por regras. Se, para meus pais, ser um sucesso era aposentar na mesma empresa, de terno e gravata, para nós ela não é menos cruel.
Hoje, não podemos estar satisfeitos em um emprego. Precisamos querer mais. Onde já se viu nos acomodar em um cargo? Você não quer ser o dono dessa bagunça? Como assim? Ele não tem ambição na vida, coitado. Estar bem, agora, é estar acomodado.
Nossa geração pode tudo, e não sabe o que quer. Não nos dedicamos, somos megalomaníacos profissionais. Empreendedorismo e diferenciação são a mesma camisa de força da estabilidade e da confiança da geração dos nossos pais. Só que de outra cor, mais século XXI.
Nem quando os livros dizem para sermos nós mesmos, temos essa capacidade. O tempo que perdemos tentando criar nosso reflexo ideal, deveria ser o tempo em que olharíamos para dentro de nós mesmos – sem maquiagem.
Sabe aquela cara amassada que nos recebe no espelho do banheiro toda manhã? É para ela que deveríamos olhar, e é dela que deveríamos nos orgulhar. É ela que deveríamos mostrar por aí, mesmo que seja no facebook.
Esqueça. Não somos glamourosos. Não somos especiais. Somos simplesmente importantes em igualíssimas proporções.
Agora vou ali, postar isso no meu blog, ok?
Ops. Ah,é! Já mandaram. Aquelas pilhas de livros em destaque na loja diziam isso, né? Que temos que ser nós mesmos. Desde que sejamos estilosos, bonitos e magros, em forma, pratiquemos um esporte, comamos comida japonesa e trabalhemos com o que amamos.
Podemos criticar a geração anterior o quanto quisermos. Seremos sempre e cada dia mais como eles: apaixonados por regras. Se, para meus pais, ser um sucesso era aposentar na mesma empresa, de terno e gravata, para nós ela não é menos cruel.
Hoje, não podemos estar satisfeitos em um emprego. Precisamos querer mais. Onde já se viu nos acomodar em um cargo? Você não quer ser o dono dessa bagunça? Como assim? Ele não tem ambição na vida, coitado. Estar bem, agora, é estar acomodado.
Nossa geração pode tudo, e não sabe o que quer. Não nos dedicamos, somos megalomaníacos profissionais. Empreendedorismo e diferenciação são a mesma camisa de força da estabilidade e da confiança da geração dos nossos pais. Só que de outra cor, mais século XXI.
Nem quando os livros dizem para sermos nós mesmos, temos essa capacidade. O tempo que perdemos tentando criar nosso reflexo ideal, deveria ser o tempo em que olharíamos para dentro de nós mesmos – sem maquiagem.
Sabe aquela cara amassada que nos recebe no espelho do banheiro toda manhã? É para ela que deveríamos olhar, e é dela que deveríamos nos orgulhar. É ela que deveríamos mostrar por aí, mesmo que seja no facebook.
Esqueça. Não somos glamourosos. Não somos especiais. Somos simplesmente importantes em igualíssimas proporções.
Agora vou ali, postar isso no meu blog, ok?
Sunday, June 12, 2011
Sem
A falta é uma coisa engraçada. Primeiro, parece que não tá sentindo - vem tão discreta e silenciosa. Os dias passam, as tardes caem em pôres-do-sol e ela vai conversando com você de mansinho. Começa dizendo que não veio para ficar, que é só por um tempo até as coisas se acertarem. Depois começa a sair com você para um sorvete, e a dizer que gostou do lugar. À noite, se aconchega em sua cama sem que você perceba, e acorda emaranhada entre seus pés. Até que um dia você questiona "poxa, mas você não vai embora?", e ela fica muda - como quem tem vergonha de ser quem é. A falta vai ficando, ficando...
Até que você se acostuma. Ela não é tão má assim. Tem uma carinha doce de cachorrinho perdido e escuta todas as suas lamentações. Vocês saem juntas, passeiam no shopping, vão ao cinema, tomam mais sorvetes, passam as tardes de domingo em frente à TV. E os dias continuam passando e em uma manhã qualquer, você percebe que ela não está mais lá. Você não sente a falta em lugar nenhum.
Você procura por ela, meio sem entender o que está acontecendo. Vocês estavam se acostumando mesmo uma à outra. Como pôde não perceber o momento em que ela se foi? Poxa, que desatenta você se tornou.
Você espera por alguns dias, acreditando que daqui a pouco ela volta. A falta é assim mesmo, some de vez em quando. Mas volta.
E ela ainda não voltou.
Até que você se acostuma. Ela não é tão má assim. Tem uma carinha doce de cachorrinho perdido e escuta todas as suas lamentações. Vocês saem juntas, passeiam no shopping, vão ao cinema, tomam mais sorvetes, passam as tardes de domingo em frente à TV. E os dias continuam passando e em uma manhã qualquer, você percebe que ela não está mais lá. Você não sente a falta em lugar nenhum.
Você procura por ela, meio sem entender o que está acontecendo. Vocês estavam se acostumando mesmo uma à outra. Como pôde não perceber o momento em que ela se foi? Poxa, que desatenta você se tornou.
Você espera por alguns dias, acreditando que daqui a pouco ela volta. A falta é assim mesmo, some de vez em quando. Mas volta.
E ela ainda não voltou.
Sunday, March 27, 2011
Confins
- Então, tchau.
Se abraçaram longamente, e as lágrimas escorriam nas duas faces. Se beijaram também. Não tão longamente quanto ela esperava. Ele ficou com vergonha dos pais que estavam ali também, no portão de embarque.
Se desvencilhou dela, que chorava. Abraçou a mãe, o pai, a irmã. E foi. Não olhou para trás ou acenou do raio x. Ele foi.
O retorno foi de carona com a sogra e a cunhada. Foi só entrar em casa para não segurar mais o choro. Ele foi. E só volta no ano que vem.
Se abraçaram longamente, e as lágrimas escorriam nas duas faces. Se beijaram também. Não tão longamente quanto ela esperava. Ele ficou com vergonha dos pais que estavam ali também, no portão de embarque.
Se desvencilhou dela, que chorava. Abraçou a mãe, o pai, a irmã. E foi. Não olhou para trás ou acenou do raio x. Ele foi.
O retorno foi de carona com a sogra e a cunhada. Foi só entrar em casa para não segurar mais o choro. Ele foi. E só volta no ano que vem.
Thursday, July 15, 2010
Um dia
Amizades perdidas, outras recém-chegadas...
Amores perdidos, outro presente e revirando tudo em volta...
Sonhos deixados pra trás, e outros que não param de pulsar...
Uma vida que achei que tinha, e outra que começa a se mostrar...
Crenças de que o mundo era lindo e feliz pra sempre, e frustrações que vêm agudas demais...
Certeza de que todos envelhecemos, e mortes inexplicáveis que acontecem à minha volta...
Um desejo tão profundo de mudança, de sair e virar outra vida, outra pessoa, outra casa...
Uma certa importância dada ao que não tem nenhuma...
Ligações não completadas.
Textos por escrever.
Livros sem terminar de ler.
Prateleiras e gavetas apinhadas.
Bagunça, muita bagunça.
Sem ver saídas no horizonte tão longo e fugidio que se estende a perder de vista.
Vontade que não se concretiza.
De sair. De ler. De escrever. De ter alegria.
Rotina. Rotina. Rotina.
É, rotina.
Mais que rotina, melancolias.
Falta entender esse mundo, falta um esconderijo secreto, falta o que me arrebate, me surpreenda de um jeito feliz.
Só falta. E não sei como conseguir.
Amores perdidos, outro presente e revirando tudo em volta...
Sonhos deixados pra trás, e outros que não param de pulsar...
Uma vida que achei que tinha, e outra que começa a se mostrar...
Crenças de que o mundo era lindo e feliz pra sempre, e frustrações que vêm agudas demais...
Certeza de que todos envelhecemos, e mortes inexplicáveis que acontecem à minha volta...
Um desejo tão profundo de mudança, de sair e virar outra vida, outra pessoa, outra casa...
Uma certa importância dada ao que não tem nenhuma...
Ligações não completadas.
Textos por escrever.
Livros sem terminar de ler.
Prateleiras e gavetas apinhadas.
Bagunça, muita bagunça.
Sem ver saídas no horizonte tão longo e fugidio que se estende a perder de vista.
Vontade que não se concretiza.
De sair. De ler. De escrever. De ter alegria.
Rotina. Rotina. Rotina.
É, rotina.
Mais que rotina, melancolias.
Falta entender esse mundo, falta um esconderijo secreto, falta o que me arrebate, me surpreenda de um jeito feliz.
Só falta. E não sei como conseguir.
Monday, July 5, 2010
Ana Júlia
Depois de muito brigar com ela e acreditar que aquela menina havia chegado para atrapalhar sua vida, eis que se vê chegando em casa tarde da noite e ajeitando a coberta da irmã com todo o carinho possível.
Tinha já 13 anos quando a temporona chegou, e aceitar que o lugar institucionalizado de filha única se transformaria no burocrático lugar de irmã mais velha, foi uma barra meio pesada de aguentar. Afinal, porque enquanto tudo o que ela queria era ir ao show dos Backstreet Boys cover, tinha que se haver com uma mãe totalmente voltada para o universo das escolinhas infantis?
Mas o tempo, inevitavelmente, passou.
Do alto de seus 23 anos, ela cobre com carinho a intrusa que agora tem 10. Ela acorda com a mexida das cobertas e olha docemente para aquele que é seu modelo de mulher adulta (coisa que a burocrata irmã mais velha ainda nem tem certeza de ser). E no que a maior responde "pode voltar a dormir", ela obedece com a tranquilidade de quem confia plenamente.
É, ela chegou para fazer de mim uma mulher melhor.
Tinha já 13 anos quando a temporona chegou, e aceitar que o lugar institucionalizado de filha única se transformaria no burocrático lugar de irmã mais velha, foi uma barra meio pesada de aguentar. Afinal, porque enquanto tudo o que ela queria era ir ao show dos Backstreet Boys cover, tinha que se haver com uma mãe totalmente voltada para o universo das escolinhas infantis?
Mas o tempo, inevitavelmente, passou.
Do alto de seus 23 anos, ela cobre com carinho a intrusa que agora tem 10. Ela acorda com a mexida das cobertas e olha docemente para aquele que é seu modelo de mulher adulta (coisa que a burocrata irmã mais velha ainda nem tem certeza de ser). E no que a maior responde "pode voltar a dormir", ela obedece com a tranquilidade de quem confia plenamente.
É, ela chegou para fazer de mim uma mulher melhor.
Sunday, July 4, 2010
Eat Pray Love Write
Eu já havia decidido isso há muito tempo. E já decidi isso muitas vezes, na verdade. Mas, de alguma forma, nunca levo a decisão para frente. E na verdade não preciso de muito. Só preciso me sentar, ligar o computador, acessar o blog, e escrever.
Sim, as histórias me aparecem em algumas esquinas. A última me pegou no meio de uma apresentação de dança no Palácio das Artes. E eu falei ela em volta alta, para não deixar escapar. Quando falei, ela entendeu que tinha que seguir comigo até o dia em que eu me decidisse por escreve-la. E eu ainda não escrevi.
Hoje mesmo eu disse "Não é possível, não aceito que o trabalho deva ser essa coisa estafante e ridícula que tem sido". E se eu pensar bem, tenho toda a razão. É só que, na verdade, eu ainda não estou fazendo o meu trabalho. Estou fazendo o dos outros.
Eu quero escrever. Eu vou escrever. Esse é o meu trabalho.
Sim, as histórias me aparecem em algumas esquinas. A última me pegou no meio de uma apresentação de dança no Palácio das Artes. E eu falei ela em volta alta, para não deixar escapar. Quando falei, ela entendeu que tinha que seguir comigo até o dia em que eu me decidisse por escreve-la. E eu ainda não escrevi.
Hoje mesmo eu disse "Não é possível, não aceito que o trabalho deva ser essa coisa estafante e ridícula que tem sido". E se eu pensar bem, tenho toda a razão. É só que, na verdade, eu ainda não estou fazendo o meu trabalho. Estou fazendo o dos outros.
Eu quero escrever. Eu vou escrever. Esse é o meu trabalho.
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