Friday, September 12, 2008

Ela

Andava meio doente há semanas. Não doeeeeente, mas incomodada. Mesmo assim, não parou. Seguiu indo pro trabalho, vestindo aquele uniforme desbotado da venda. Aviamentos pode ser carreira?
A mãe já começava a mudar de idéias. Antes queria vê-la independente, solteira e feliz. Mas chegou a comentar com a empregada: "Quem dera ela namorasse aquele tal de Fábio... menino bom".
Riu quando ficou sabendo. E se preocupou. Se a mãe perdia as esperanças, talvez fosse hora de se preocupar mesmo.
Descobria o samba e a bossa. Queria passar o dia ao lado daqueles novos amigos. Era sempre uma surpresa. Sempre um dizer novo, uma frase genial. Queria ser assim, Genial.
Dançava sozinha no quarto, abraçando um homem imaginário. Lindo, não muito mais alto, cabelos castanhos, olhos claros. Talvez fosse o Dick Farney.
Lia, mas não de forma voraz como a irmã. Lia com calma, deleitando-se devagar. Demorava num livro só. Era amor, não era paixão.
Também costumava se irritar, tinha um gênio difícil, como muitos diriam. "Não bata as portas", reclamava a mãe vigilante.
Quando ficava nervosa demais, chorava. Chorava um pouco mais. "Lava a alma". "Chorar pra quê? Você tem tudo que pode querer".
Mas chorava escondido. Só o pobre vira-lata como testemunha. E ele lhe lambia as mãos, os pés, numa tentativa desesperada de faze-la parar.
Acordava sempre com o barulho da rua. Isso sim, a irritava. Às vezes, abria a janela e gritava: "Chega!".
E lá ia ela, se vestir. Os cabelos, rebeldes. Não adiantava tentar pentear. Tinha que seguir suas vontades. A roupa, em geral discreta. Não gostava de apertos, decotes, laços, laçarotes. Chamar a atenção não lhe seduzia.
Mas era bela, mesmo assim. Poucos notavam, na verdade. Mas depois que notavam, e olhavam mais algumas vezes, se convenciam. Ela, não. Tinha medo de esperanças. Preferia evita-las.
Namorado mesmo, só um. Ela mesma desistiu. Não queria passar a vida na sombra de alguém. Muito menos dele. A mãe nada disse. Dizia agora, na constante busca por um substituto.
"Achei mesmo que ia pra frente". "Não, mãe...".
Era isso que a fazia fugir deles. Todos eram-lhe iguais. À procura de uma seguidora, uma sombra. Egoístas e bestas, era como os classificava.
Ainda corria atrás dos estudos. Era boa no que fazia. Mas as oportunidades demoravam a bater à porta. Era ansiosa, vivia se queixando de tanto esperar. "Pelo quê, meu Deus?".
Enfim, colocava sua saia azul, sua blusa branca. Sapatos, às vezes vermelhos. E ia. Ia.