Veio com a bandeja pesada e tentando equilibrar também o copo de suco de laranja. Assim que conseguiu pousa-la na mesa, avistou a amiga de outros tempos sentada um pouco mais adiante na praça de alimentação e o carrinho de bebê ao lado. Pediu licença à irmã, nem acreditava que afinal ia conhecer Gabriela, que só tinha visto na barriga. Aproximou-se e foi recebida com sorrisos. Gabi já tinha mais de um ano, o tempo que não se viam, e mandava beijos o tempo todo.
Olhos e cabelo cor de mel como os de Cristina. Contou que estava viajando no próximo final de semana, ia passar uma temporada fora do país, a trabalho, e nem sabia se voltava. A amiga sumida e agora mãe, lamentou o tempo perdido que agora poderia ficar irrecuperável. Ela contava que justamente na noite anterior havia feito uma pequena festa de despedida do Brasil. Cristina convidou-a a se sentar.
Antes que pudesse responder ele sentou-se com sua própria bandeja. Ela gelou. Já o conhecia, e não de qualquer noite, mas da noite anterior. Como um soco na barriga, tentou retomar o fôlego e pensar rapidamente, ao mesmo tempo em que tentava ouvir o que Cristina lhe dizia. Aquele era seu marido, Jorge. Muito prazer. Estendeu a mão gelada e disse seu nome, ao que ele cumprimentou e fingiu nunca ter ouvido ou visto mais magra. Não pôde acreditar na cara de pau.
Ontem mesmo se atracara com ela sem nenhuma cerimônia. Estava branca. Pediu licença, disse que a irmã já estava almoçando do outro lado da praça e que sua comida já devia ter esfriado. Cristina não percebeu nada. Desejou-lhe toda a felicidade do mundo. Ela ainda brincou um pouco com Gabriela, dos olhos cor de mel, que agora via, eram do pai. Saiu.
Sentou-se sem conseguir tirar os olhos do casal e da cara de pau que não sabia existir ainda no mundo. Não tinha como não lhe ter reconhecido. Ou tinha? Estaria assim tão bêbado? Ou será que era ela que estava alucinando, vendo coisas? Quem sabe não era ele? Mas olhava de novo e não tinha como negar a si mesma a verdade que lhe revirava o estômago o tempo todo. Sentia nojo. De si, dele. Mal conseguia comer. Gabriela se erguia no carrinho e a olhava, mandava beijos de longe, sorrindo. Ela cada vez mais pasma e convencida de que estava certa, às vezes se deixava perder na doçura do olhar cor de mel da menina.
Quando se levantou para pagar pelo almoço, já menos zonza do choque, vê o próprio Jorge vindo em sua direção, voltando do caixa do restaurante. Vai fingir que não me viu, claro. Gelada e sem saber se continuava ou se voltava pra trás, ela segue. Ele se aproxima e quando estão quase se esbarrando o tempo pára pelo milésimo de segundo em que ele pisca para ela e continua tranqüilo o seu caminho em direção à esposa e à filha, que ainda lhe manda beijos.
No comments:
Post a Comment